O dia de todos os santos foi instituído como festa cristã em 609 ou 610 pelo papa Bonifácio IV [1]. A tradição cristã tende a asfixiar e obliterar a raiz pagã de todas estas tradições velhas como o tempo e provenientes da nossa matriz cultural indo-europeia.
Ontem, quando conduzia numa auto-estrada da província da Salamanca, ouvia na radio local Salmantina, portanto de uma terra de grande fervor religioso cristão, uma breve nota acerca desta tradição pagã. Nada que eu não soubesse já mas a verdade é que por cá parece que temos pudor em falar na cultura pagã que, apesar da intensa romanização que nos trouxe muitas coisas boas como o direito, a organização e as vias de comunicação, também implicou uma grande delapidação das tradições autóctones como os cultos e a língua. Por alguma razão os nossos antepassados lutaram até à morte contra os romanos.
As nossas tradições mais longínquas desta época do ano falam de festas dos mortos e de fim de ciclo de colheitas que se havia iniciado com as sementeiras da primavera. Era também a altura em que o gado era recolhido das pastagens de verão e abatido para proporcionar carne e agasalho para o inverno [2]. Esta festa encerrava a vida agradável e de grande labor do verão e da maior parte da primavera e do outono. Os homens e mulheres embebedavam-se com uma cerveja que então fabricavam [3][4]. Note-se que nesta sociedade celta ou celtizada a mulher tinha uma importância que ombreava com a do homem no trabalho e na guerra [4]. Estes ritmos ancestrais são típicos de muitos povos mas desde o 1º milénio antes da nossa era, tornam-se muito importantes na Europa Atlântica em geral e em particular nas terras que hoje ocupamos e a que chamamos Portugal, Galiza, Astúrias, Leão e Cantábria [5]. Estas festas são conhecidas e descritas como Samhain na primitiva literatura irlandesa [6]. O que é que nós temos a ver com a Irlanda? É que, hoje sabe-se, através da marcação genética que, apesar de por cá ter passado muita gente, foram apenas gotas de café numa chávena de leite e que somos basicamente o que já eramos há 3000 anos [7][8]. Por outro lado, sabe-se que a Irlanda e o sul da Inglaterra, entre outras migrações importantes, também foram ocupadas precisamente pelos celtas da Ibéria [9] tal como se encontra descrito no Lebor Gabála Érenn (Livro das invasões da Irlanda) [10] e pela lenda de Breogan, o rei celta do noroeste que terá dado nome a Brigantia (A Corunha) e a Bragança. Algumas destas tradições foram levadas para lá, outras já lá existiriam sendo já pertença desse mundo celtizado vindo do centro da Europa, por isso, dizer que o Haloween é uma tradição anglo-saxónica não é correcto, trata-se de uma tradição céltica ainda bem enraizada entre nós em Trás-os-Montes mas que não se chama desta maneira. Os transmontanos sabem preservar as suas tradições pagãs como a noite das bruxas, a bruxaria, as curas baseadas no que a natureza dá (reminiscências dos druidas?), o carnaval, as chegas de bois, as gaitas de foles, os pauliteiros, etc. e discutem-nas no Congresso de Vilar de Perdizes, sempre a par com a melhor tradição cristã. Isto significa que estes dois mundos são conciliáveis e que podemos e devemos explorar mais esta faceta da nossa longa e rica história como povo. Compreendê-la melhor resulta em compreendermo-nos melhor para termos mais orgulho naquilo que somos.

No Portugal pagão, o trisquel era o símbolo máximo da crença. Uma espécie de cruz cristã.
Depois da conquista romana, esta tradição celta foi adaptada pelos romanos que lhe chamaram Lemuralia, tratava-se de uma festa aos mortos em que se praticavam ritos para exorcizar os espíritos malévolos e em que os Vestais preparavam bolinhos com a farinha fresca feita com as colheitas desse ano [11]. Finalmente, no século VII, a Lemuralia perdeu a sua dimensão profana transformou-se no dia de finados (2 de Novembro) que hoje se comemora no dia de todos os santos (1º de Novembro), ou melhor, comemorava porque os inteligentes de Lisboa e os supra-sumos da igreja acharam por bem eliminar o feriado correspondente a esta festa de milénios.
Uma palavrinha final para o que me levou a escrever estas linhas: o “pedir os bolinhos” é outra tradição que se perde no tempo. Ultimamente, passei a ler, em informação nunca referenciada, que esta velha tradição se chama “Pão-por-Deus” e que apareceu em Lisboa no ano a seguir ao terramoto de 1775 [12]. As crianças passaram todos os anos a bater às portas a pedir pão para obviar a pobreza, cantavam versos etc, etc, enfim uma coisa muito rebuscada. Isto para mim é uma grande novidade, na minha terra nunca houve “Pão-por-Deus”, sempre houve e ainda há “Bolinhos, bolinhos à porta dos santinhos!”, nunca houve versos declamados às portas (coisa demasiado civilizada para bárbaros como nós) e nunca se pediram os bolinhos para matar a fome, os bolinhos são doces, são uma guloseima. Pede-se o bolinho porque os nossos avós já o faziam e assim pode-se manter uma tradição muito antiga, de resto faz-se exactamente a mesma coisa no norte da Espanha. Gostava muito que certas pessoas da capital parassem de querer impingir ao resto dos Portugueses aquilo que acham ser as suas tradições (Pão-por-Deus, fado, touradas, mouromania, etc.), podemos todos gostar dessas coisas mas que se extrapole e queiram que elas sejam de todos os Portugueses, é uma falta de respeito. Somos um país pequeno e uniforme mas culturalmente rico e diverso. Esta questão do Pão-por-Deus leva-nos imediatamente a pensar porque será que os Irlandeses, Ingleses, Americanos, Australianos têm exactamente esta mesma tradição dos Bolinhos? Os miúdos vão pedir às portas e dizem apenas “Trick-or-Treat!” (Doce ou travessura?). Em vez de lhes darem bolinhos doces dão-lhes doces; Lá mascaram-se (para assustar) e cá não; Lá fazem no dia 31 à tarde e aqui é no dia 1 de manhã. É a mesma coisa e não nasceu em Lisboa há quase 250 anos.

São Simão, esta manhã. Lá vão eles de saquinho à procura dos bolinhos. A tradição continua viva.
A igreja não precisa de nos arrancar a nossa ancestralidade porque já tem um lugar muito importante nas nossas tradições e Lisboa pode guardar para si as suas tradições, ou parar de inventá-las e deixar os outros Portugueses perceberem quais são as deles.
[1] Hileman, Laura, 2003. What is All Saint's Day?, The Upper Room (United Methodist Church).
[2] Manuel Velasco, 2004. Breve Historia de los Celtas, Ediciones Nowtilus – Saber. ISBN: 84-9763-241-9
[3] Pedro Silva, 2006. História dos Lusitanos, Editora Prefácio, ISBN: 989-8022-05-1
[4] João Vaz, 2009. Lusitanos – no tempo de Viriato, Editora Ésquilo, ISBN: 978-989-8092-51-9
[5] Haywood, John, 2001. The Historical Atlas of the Celtic World, Thames & Hudson, ISBN: 978-0500051092
[6] Ross, Anne, 1981. The Celtic Consciousness: Material Culture, Myth and Folk Memory, O'Driscoll, Robert (Ed.), Braziller, New York, pp. pp.197-216: ISBN: 0-8076-1136-0
[7] Pereira, Luísa e Ribeiro, Filipa, 2009. O património Genético Português – A história humana preservada nos genes, Gradiva, ISBN: 978-989-616-326-6
[8] Cunliffe, Barry e Koch, John, 2012. Celtic from the West: Alternative Perspectives from Archaeology, Genetics, Language and Literature, Celtic Studies Publications, Oxbow Books, ISBN: 978-1842174753
[9] Koch, John, 2009. Tartessian: Celtic in the South-west at the Dawn of History, Celtic Studies Publications, ISBN: 978-1891271175
[10] Danaher, Kevin, 1981. The Celtic Consciousness: Irish Folk Tradition and the Celtic Calendar, O'Driscoll, Robert (Ed.), Braziller, New York, pp.217-242: ISBN 0-8076-1136-0
[11] Thaniel, George, 1973. Lemures and Larvae - The ordinary appellation for the dead in late Republican and early Imperial times, pp. 182-187.
[12] – Dia de Todos os Santos – Pão-por-Deus, Wikipédia, http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_de_Todos-os-Santos em 1 de Novembro de 2012.